sábado, 16 de março de 2013

O país dos segundos clubes


Nos jogos com os grandes, levo sempre a camisola. Nos outros nem sempre, basta-me ter as cores ao pescoço, mas nestes é uma questão de passaporte, é para ninguém ter de pensar duas vezes. Não haverá nenhum maritimista a quem nunca tenham perguntado: "E o outro clube?". Nos jogos grandes, a minha camisola é a resposta mesmo para quem não perguntou. Um dia, a falar a um jornalista sobre o seu segundo clube, o meu pai disse que o 1º era o Marítimo, o 2º era o Marítimo, o 3º era o Marítimo, e o 4º só não era, porque ter quatro clubes já era demais. Custa-me a entender que o clubismo não seja indivisível.

Ser do Marítimo foi sempre natural. Resultou da simplicidade de quem vai ao estádio, semana após semana, desde os 8 anos, pareceu intrínseco. Estranho era não ser do Marítimo, na verdade. Enquanto cresci, ser de um clube que não tinha nada a ver com o que existia à minha volta, só porque era maior, fazia tanto sentido como querer ter pais diferentes, exigir viver numa mansão ou desprezar a minha terra por não ser uma metrópole. O meu clube nunca foi uma escolha, porque o nosso lugar e a nossa família não se escolhe. Família estima-se, respeita-se e cuida-se, e tem-se, sobretudo, um infindável orgulho nela, porque é a nossa. Pode ser pequena, pobre e ter todos os defeitos do mundo, mas ninguém sai à rua à procura de uma maior.

Não tenho nenhum problema com quem é dos grandes, mas também não tenho nenhuma dúvida de que o futebol português seria infinitamente melhor sem essa febre doentia do biclubismo. Seria mais saudável, mais democrático, mais competitivo. Teria estádios mais cheios, maior identificação, maior rivalidade e maior sustentabilidade. Tudo o que é polarizado é um cancro, e não é à toa que estamos condenados a olhar com uma admiração envergonhada para o que acontece nos maiores países da Europa.

Não que o United, o Madrid ou o Bayern não tenham mais gente, mas, nesses campeonatos, quando eles jogam fora, jogam mesmo. As pessoas orgulham-se do emblema com o qual cresceram a minutos de casa, do clube dos pais, e dos pais dos seus pais, da casa que esteve sempre ali para eles, e que tem uma história com eles, e com quase todos os seus. Para mim, o futebol é pessoal, tem de ser. É essa identificação, é a proximidade e a militância, é acarinhar as cores de onde se nasceu, como se se estivesse a defender a nossa gente. "Ser campeão é detalhe", como diria o grande Sócrates. Há coisas tão mais importantes do que ganhar ou perder.

Em Portugal, tem-se pena de quem pensa assim. Este é o país onde ser exclusivamente do Marítimo, da Académica ou do Setúbal é ser saloio e merecer um olhar de condescendência. É que o português só se sente confortável se achar que é superior. Não tenho nenhum problema com quem é dos grandes, mas a obsessão com eles reflecte o nosso complexo de inferioridade enquanto país. É um sintoma do atraso de um Portugal sem auto-estima regional, que, quase 40 anos depois do fim da ditadura, insiste em continuar estupidamente bipolarizado. Neste retrato do país, morre aos poucos o futebol profissional em Portugal, como morre o Interior e a ultra-periferia, e, qualquer dia, tudo o que não seja Lisboa ou Porto, e a sua liguilha dos três do costume. Estamos todos muito ocupados a ser importantes.

14 comentários:

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  2. Paulo Pereira muitos parabéns pelo seu artigo está muito bom
    Marítimo até morrer!

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  3. Neste aspeto devíamos ser muito mais unidos e com outra mentalidade, mas esse problema muitas das vezes vem do berço, mas espero que essa historia do bi-clubismo chegue ao fim, e que na Madeira todas as equipas tremam por sermos uma grande massa associativa que puxa a brasa á sua sardinha, um grande abraço a todos aqueles que sentem o nosso Grande CSM ;).......Parabéns pelo artigo .

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    1. Esta é uma questão de mentalidade, de cultura desportiva, e com ameaças não resolvemos absolutamente nada, apenas vamos afastar ainda mais as pessoas dos Barreiros, e esse não é o nosso objectivo.

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  5. Para a maioria das pessoas ler estes textos não é de todo agradável, no entanto devemos continuar a insistir nesta tecla com todas as nossas forças.

    Temos de parar com a estupidez que é ter pessoas na central dos Barreiros com camisola de um clube e cachecol de outro, vira casacas que após um ano a apoiar o Marítimo de repente viram-lhe as costas no jogo contra o seu clube do coração e oportunistas que entram com convites para ver o seu estarola jogar.

    É bom ver que a mentalidade está a mudar e que cada vez mais se condenam este tipo de adeptos. Falta a direcção acordar e parar de incentivar esta parolice, acabando com a oferta de convites para estes jogos. Basta!

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    1. Nós fazemos a nossa parte, mas sem o apoio da direcção não vamos a lado nenhum e infelizmente não parece haver grande vontade ou sensibilidade para este assunto.

      A nós (adeptos) cabe-nos pressionar, escrever, lançar o debate até que nos ouçam, mas para isso temos que ser mais participativos e isso também não acontece.

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    2. Realmente é lamentável. Existe ainda madeirense que detesta o Marítimo, nunca percebi os fundamentos desse ódio, mas não perco tempo em saber. É lamentável a situação do cachecol ser diferente da camisa, mas isso é mesmo questão de adeptos condenarem essas atitudes, pressionando esses dito adeptos dos dois que estão em campo.

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  6. Parabéns por tudo o que escreveu..saudações desportivas de um Bracarense

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  7. Grande texto... Que se fod* os bi-clubistas, e Força Maritimo... Abracos de um Bracarense

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  8. Texto muito bom....mesmo muito bom,quem não sente não sabe... Só não acredito no biclubismo,toda gente só apoia um clube de coração...O resto são conveniências....E atenção, deixo aqui também uma crítica aos clubes,deveriam criar mais incentivos(nas bilheteiras)para chamarem mais miúdos para que assim estes,desde novos ganhem o bichinho pelo clube da terra...Saudações braguistas...

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  9. Texto muito bom....mesmo muito bom,quem não sente não sabe... Só não acredito no biclubismo,toda gente só apoia um clube de coração...O resto são conveniências....E atenção, deixo aqui também uma crítica aos clubes,deveriam criar mais incentivos(nas bilheteiras)para chamarem mais miúdos para que assim estes,desde novos ganhem o bichinho pelo clube da terra...Saudações braguistas...

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  10. Texto perfeito à excepção de uma coisa, é Vitória e não Setúbal, é como chamar Madeira ao Maritmo...

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